Máxima, Edição especial 35º aniversário

MÁXIMA REGRESSA ÀS BANCAS PARA COMEMORAR 35 ANOS

Quarta-feira, 15 de novembro, a Máxima publica uma edição especial em papel que assinala o aniversário do título.
Com o desaparecimento dos títulos em papel dedicados às causas femininas – um espaço que a Máxima ocupa no online, hoje – regressamos às bancas para uma edição especial de aniversário que celebra os 35 anos da revista.

Ser designer de interiores é muito isto: fazer com que as paredes contem a história de quem vive naquela casa. E quando estas têm milhões de anos e a sua própria história para contar? É o caso da Boulder House, a casa de férias que Rita Andringa recuperou para si própria, e que é um verdadeiro percurso megalítico.

UMA CASA MILENAR por Madalena Haderer

EM CRIANÇA, RITA ANDRINGA lembra-se de ir com a mãe à redação da Máxima para uma entrevista de em­prego. Isto foi há 35 anos, precisamente quando a revis­ta estava a dar os primeiros passos – o que celebramos nesta edição. Por isso, esta conversa teve qualquer coisa de estranha coincidência cósmica. Nessa altura, com anos, Rita ainda não sabia o que é que queria ser quando crescesse, mas os professores diziam-lhe que tinha jeito para artes e ela foi seguindo esse caminho. A determinada altura diz que quer ser pintora. O pai acha “um disparate” e sugere arquitetura. Rita rejeita. Vai para o IADE, onde as melhores notas eram a Interiores, e é isso que acaba por escolher. Começou a trabalhar em ateliês e, “estra­nhamente”, é convidada mais para fazer projetos de arqui­tetura do que interiores e decoração. “Acho que o meu pai tinha razão, o que é giro de dizer”, confessa.

Durante 16 anos, trabalhou com Vera Iachia, a designer que desenvolveu o estilo inspirado na Comporta – que consis­te numa mistura de peças de artesanato português, como os bordados de Viana, com abjetos, cores e texturas típi­cas de ambientes exóticos, como Bali, e que a designer foi moldando à medida que ia restaurando as antigas casas de pescadores da herdade da Comporta. Quando Vera mor­reu, esse testemunho foi passado a Rita, que continua a ser muito procurada para desenvolver projetos dentro desse estilo que é, de resto, o que mais gosta de fazer e aquilo que mais a diverte “porque é misturar muitas coisas muito bonitas”.

Começou o seu Andringa Studio sozinha, em 2019, foi crescendo e hoje tem 11 pessoas a trabalhar consigo, in­cluindo o marido, Filipe Rocha. E é onde nos recebe, nas Avenidas Novas, para uma conversa sobre o seu mais re­cente projeto – a Boulder House, uma casa de férias nas margens do Alqueva que recuperou para si própria também sobre o que é que cada pessoa pode fazer para viver melhor na sua própria casa.

Como define o seu estilo, o estilo do Andringa Studio?
Gosto muito de usar materiais naturais – como as pa­lhinhas, as terracotas e as madeiras texturadas – e gosto muito de fazer misturas inusitadas. E brincar com a es­cala. São estas as três parangonas, mas depois é preciso adequar ao sítio e à pessoa. Para nós é muito importante a noção do lugar. E depois é responder ao desafio que o cliente coloca. Talvez queira ter Bali no Algarve. Ou tem casa no Alentejo, mas nasceu em Trás-os-Montes e quer trazer para ali uni pouco das suas origens. Como é que isto se faz? É esse o desafio.

O que é que significa brincar com a escala?
É pegar numa coisa que normalmente é conhecida por ser pequena, e se calhar pequena até é meio pirosa, mas depois aumentamos aquilo para um tamanho que nem se percebe logo o que é. Essa é unia ideia. Outra ideia é usar peças grandes. Adoro sofás grandes. Aquela coisa de es­tarmos sentados em 70 centímetros, que castigo é esse? O convite a deitar, a estar descalço, a estar confortável. So­fás, candeeiros, almofadas, flores, jarras têm de ser sem­pre grandes.

O que é que faz mais falta para que uma pessoa se sinta bem na sua casa?
Boa luz, boa roupa de cama e bons turcos de casa de ba­nho. Fundamental é tudo onde o olho bate e a pele toca. E sempre um belo arranjo de flores. A beleza leva-nos longe. A boa luz, para mim, não é a luz de teto, é a luz ambien­te, luz quente. Nunca é acender uma luz e já está. É haver nichos com luz mais alta, mais baixa. A casa pode estar vazia, mas se tiver uma entrada de luz, um candeeiro, o ambiente já está feito.

Os portugueses têm muita tendência para atafulhar a casa de coisas ou isso é coisa do tempo dos nossos avós?
Depende. Diria que os portugueses não atafulham. É raro o português que gosta de comprar arte, que tem livros em casa, que tem plantas. O que mais me transtorna é ver que as pessoas não vivem confortavelmente. Estão-se nas tin­tas se têm tapete. Se têm cortinados. Se a casa faz eco. Não querem saber. Ou então não sabem que pode ser diferente porque não foram expostas a estas coisas todas que me­lhoram a vida das pessoas.

“Um designer de interiores é amante, filho, marido, tera­peuta…” E uma frase sua. O que quer dizer com ela?
Quando trabalhamos com casais, quantas vezes somos terapeutas de casal nas reuniões? Às vezes somos sacos de boxe. Às vezes há uma relação deliciosa entre nós e o cliente. Temos de ter tantos papéis. Quando faço uma casa, vou saber onde é que o cliente vai pôr as cuecas. Te­nho de perguntar tudo. Que hábitos é que tem. Como é que dorme. Como é que é o armário dos comprimidos. Temos de perceber todos os hábitos para conseguirmos responder a tudo o que é preciso ter numa casa. Por isso é que digo que é preciso ter jogo de cintura. Acho que isto de ser designer de interiores é um superpoder. Tem de ser bem usado, mas é porque aquilo que nós fazemos muda mesmo a vida às pessoas, para melhor e para pior.

A Rita pensou a Boulder House. uma casa que foi dese­nhada por si para si.
Andávamos à procura de uma casa de férias perto do mar. Uns amigos chamaram-nos a atenção para esta casa que, não tendo mar, tem o Alqueva, que é lindo. O Filipe apai­xonou-se logo. Eu não estava muito convencida porque nunca tive casa de férias e não achei que precisasse, mas sempre gostei muito de Monsaraz e adoro percursos me­galíticos. Quando fomos ver a casa, abrimos a porta da ar­recadação e vimos uma pedra gigantesca. É. como ter uma anta ou um minimenir dentro de casa! Como é que uma pessoa tem esta pedra e em vez de a ter à vista, está es­condida na arrecadação, cheia de porcaria à volta? Hoje aquela pedra é o nosso duche.

Sei que teve o cuidado de garantir que a casa mantinha o traçado e os materiais típicos do Alentejo. Que escolhas fez para que esse fosse o resultado final?
A casa ficou praticamente corno era. Usámos cimento branco e areia amarela em todo o lado. Só envernizámos onde ia haver água. Tudo nos mesmos tons. Parece que tudo sai da terra. Gosto disso. E gosto de fazer mobiliário built-in, em alvenaria. Parece que a decoração sai das pa­redes. Foi engraçado brincar com isso porque a casa tem pedras a sair por todo o lado. E uma coisa que fizemos com o empreiteiro foi decidir que as pedras mandam. Não as vai tirar. Vai ter de andar à volta das pedras. Para mim foi muito bonito fazer isto porque o Filipe estava apaixona­do pelo sítio e eu apaixonei-me pelo processo. Fazer uma casa para mim é muito mais difícil do que fazê-la para os outros.

la perguntar precisamente isso.
Para os outros é fácil decidir. Para mim é muito complicado, o Filipe sofre muito. “Escolhe a cor. Escolhe a cor! Escolhe a cor agora! Tem de ser! Estás há três semanas para me dizer que cor é. Estamos todos atrasados.” E eu não consigo, não consigo. Tenho de escolher a melhor cor. Hoje apetece-me isto, amanhã apetece-me aquilo… O pior – e isto é uma coisa meio esquizofrénica – é que eu vivo como se fosse um cliente. Agora vou gastar este dinheiro e vou fazer isto, portanto tenho de escolher bem. E por isso não escolho. O Filipe diz-me: “Rita, a tua vida é um labo­ratório. Por favor, escolhe qualquer coisa e depois mudas.” Mas não. Nem pensar. Se pinto hoje, não vou pintar outra vez para a semana.

O que é que faz falta numa casa de férias?
É engraçado, na nossa casa de Lisboa ternos imensas coi­sas, mas na Boulder House, não, Ali, a arquitetura e a es­cala falam muito connosco. O senhor que fez a parede, que passou o reboco com as costas da colher, tinha dias em que estava mais bêbado, dias em que via melhor. E o re­sultado é que nós olhamos para a parede e aquilo está vivo. Aquilo conta uma história. Para além disso, quando esta­mos de férias, nas casas de campo ou nas casas de praia, a natureza fala mais connosco. Estamos mais cheios. Em Lisboa temos de encher para ir buscar as emoções.

Qual é o detalhe de que mais gosta na Boulder House?
Para mim, a coisa mais extraordinária é o duche com a pedra. As vezes belisco-me. Isto é mesmo meu. Isto está mesmo aqui.

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